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Alimentação e enxaqueca: qual a relação com as crises de dor de cabeça?

 Conteúdo desenvolvido em parceria com a Nutricionista Aline Andretta Levis (CRN8 6972)

Quem convive com dores de cabeça frequentes sabe o quanto elas podem interferir na rotina, no trabalho e na qualidade de vida. Mas será que aquilo que comemos também pode influenciar o aparecimento dessas crises?

A resposta é sim, especialmente quando falamos de enxaqueca. Entretanto, essa relação é mais complexa do que simplesmente identificar alimentos que fazem bem ou mal.

Segundo a nutricionista Aline Andretta Levis (CRN8 6972), a alimentação pode influenciar a ocorrência de crises em pessoas predispostas à enxaqueca, mas os fatores envolvidos variam de uma pessoa para outra.

Por isso, o acompanhamento nutricional deve considerar não apenas os alimentos consumidos, mas também os horários das refeições, a hidratação e os hábitos de vida.

Alimentação e enxaqueca: alguns alimentos podem desencadear crises?

Queijos curados, bebidas alcoólicas, embutidos e alimentos que contêm glutamato monossódico estão entre os produtos frequentemente relatados como possíveis desencadeadores de crises.

No entanto, isso não significa que todas as pessoas com enxaqueca precisem evitá-los. A relação entre alimentos específicos e crises nem sempre é comprovada, e os gatilhos alimentares podem ser menos frequentes do que se imagina.

Aline explica que, na prática clínica, é importante investigar a alimentação e a rotina antes de recomendar qualquer exclusão. O objetivo é identificar possíveis relações entre o consumo de determinados alimentos e os sintomas, sem estabelecer restrições desnecessárias.

Essa avaliação também considera outros fatores que podem estar presentes no momento da crise, como estresse, sono inadequado ou períodos prolongados sem comer.

O que parece desencadear uma crise em uma pessoa pode não ter o mesmo efeito em outra.

Ficar muito tempo sem comer pode provocar dor de cabeça?

Refeição equilibrada com proteínas, vegetais e grãos, ilustrando a importância da regularidade alimentar para pessoas com enxaqueca.

Nem sempre a questão está relacionada a um alimento específico. A organização das refeições ao longo do dia também merece atenção.

Passar muitas horas sem comer, pular refeições ou manter uma ingestão alimentar insuficiente pode favorecer crises em pessoas suscetíveis.

Por isso, Aline considera importante avaliar os horários, a quantidade e a composição das refeições durante o acompanhamento nutricional.

Uma rotina alimentar equilibrada, adaptada às necessidades individuais, pode ajudar a reduzir fatores associados ao aparecimento das crises.

Isso não significa que todas as pessoas precisem comer a cada três horas. O mais importante é encontrar uma organização alimentar compatível com suas necessidades e sua rotina.

Hidratação e cafeína: qual é a relação com a enxaqueca?

Copo de água e xícara de café sobre mesa próxima à janela, representando a relação da hidratação e da cafeína com a dor de cabeça.

A ingestão insuficiente de água é outro fator que merece atenção.

A desidratação pode contribuir para o aparecimento de dores de cabeça, tornando importante manter uma hidratação adequada ao longo do dia.

As necessidades de água variam conforme características individuais, atividade física, temperatura ambiente e condições de saúde.

Quanto de água devemos beber por dia?

Como referência inicial utilizada em alguns contextos de orientação nutricional, pode-se considerar aproximadamente 35 ml de líquidos por quilo de peso corporal ao dia.

Por exemplo, para uma pessoa de 60 kg, isso corresponde a cerca de 2,1 litros diários.

Entretanto, esse cálculo não é uma recomendação universal. A necessidade de hidratação também depende da água presente nos alimentos, das perdas de líquidos e das condições individuais.

O café pode causar dor de cabeça?

A cafeína também pode influenciar as crises.

O consumo excessivo e a interrupção repentina do café em pessoas acostumadas a consumi-lo regularmente podem estar associados à dor de cabeça.

Por outro lado, a cafeína também está presente em algumas formulações utilizadas no tratamento de crises.

Isso não significa que o café precise ser eliminado da rotina. O ideal é avaliar a quantidade consumida, a regularidade e a resposta individual.

Magnésio, vitamina B2 e coenzima Q10 podem ajudar na prevenção da enxaqueca?

A alimentação adequada contribui para o funcionamento do organismo e também faz parte do cuidado nutricional de pessoas com enxaqueca.

Na avaliação clínica, Aline considera importante investigar possíveis inadequações nutricionais e observar a ingestão de vitaminas e minerais.

Entre os nutrientes e compostos estudados na prevenção da enxaqueca estão o magnésio, a riboflavina (vitamina B2) e a coenzima Q10.

Magnésio

O magnésio participa de diversos processos relacionados ao funcionamento muscular e do sistema nervoso.

Alguns estudos sugerem que sua suplementação pode contribuir para reduzir a frequência das crises em determinadas pessoas. Entretanto, a indicação, a dose e a forma utilizada devem ser avaliadas individualmente.

Riboflavina (vitamina B2)

A riboflavina participa de processos envolvidos na produção de energia pelas células.

Por esse motivo, tem sido investigada como uma possível estratégia complementar para a prevenção da enxaqueca. Alguns estudos apresentam resultados favoráveis, embora as evidências ainda tenham limitações.

Coenzima Q10

A coenzima Q10 também participa da produção de energia celular, especialmente nas mitocôndrias.

Seu possível papel na prevenção da enxaqueca vem sendo estudado, mas ainda são necessárias pesquisas para definir melhor quais pacientes podem se beneficiar.

A suplementação não deve ser iniciada indiscriminadamente e não substitui os tratamentos recomendados pelo médico.

Eixo intestino-cérebro: o que essa conexão tem a ver com a enxaqueca?

Ilustração científica realista representando a comunicação entre intestino e cérebro, tema investigado em pesquisas sobre enxaqueca.

Nos últimos anos, a relação entre o intestino e o cérebro passou a receber atenção crescente nas pesquisas científicas.

Essa comunicação, conhecida como eixo intestino-cérebro, envolve mecanismos nervosos, hormonais, imunológicos e metabólicos que conectam o sistema digestivo ao sistema nervoso central.

Aline também desenvolve atividade científica relacionada a esse tema e é uma das autoras do artigo The relationship between the gut-brain axis and migraine, publicado em 2024 na revista científica Headache Medicine.

O trabalho aborda como a microbiota intestinal, a comunicação entre intestino e cérebro e determinados processos relacionados à resposta imunológica podem participar dos mecanismos associados à enxaqueca.

Embora seja uma área promissora, ainda são necessários mais estudos para compreender essas relações e determinar quais intervenções direcionadas à microbiota podem trazer benefícios clínicos consistentes.

Essa perspectiva reforça a importância de considerar diferentes aspectos da saúde ao avaliar pessoas com crises recorrentes.

Sono e estresse também fazem diferença nas crises de enxaqueca

A alimentação é apenas uma parte do cuidado.

Aline destaca que a qualidade do sono, os níveis de estresse e a rotina diária também precisam ser observados durante o acompanhamento.

Dormir pouco, manter horários irregulares e vivenciar períodos de estresse intenso podem favorecer crises em algumas pessoas.

Por isso, identificar possíveis gatilhos envolve compreender o conjunto de hábitos e circunstâncias que fazem parte do dia a dia.

Por que não devemos excluir alimentos por conta própria?

Um dos erros observados por Aline na prática clínica é a retirada de diversos alimentos sem uma avaliação adequada.

Na tentativa de evitar crises, algumas pessoas passam a restringir cada vez mais a alimentação, tornando as refeições repetitivas e limitando a ingestão de nutrientes importantes.

Além de nem sempre trazer resultados, esse comportamento pode comprometer a qualidade da dieta.

Antes de excluir alimentos, é fundamental avaliar o padrão alimentar como um todo.

Uma alimentação variada, com frutas, verduras, legumes, fontes adequadas de proteínas e outros alimentos nutritivos, deve fazer parte dessa análise.

O objetivo não é criar uma lista extensa de proibições, mas identificar o que realmente faz diferença para cada pessoa.

Alimentação e enxaqueca: por onde começar?

Para quem sofre com crises frequentes, observar a própria rotina pode ser um primeiro passo importante.

Algumas atitudes que merecem atenção são:

  • Manter uma hidratação adequada ao longo do dia.

  • Evitar longos períodos sem comer, especialmente quando estiverem associados às crises.

  • Observar a quantidade e a regularidade do consumo de cafeína.

  • Cuidar da qualidade e da regularidade do sono.

  • Registrar os episódios de dor de cabeça, a alimentação e outras circunstâncias relacionadas.

  • Procurar acompanhamento médico e nutricional quando necessário.

O registro dos episódios pode ajudar os profissionais de saúde a identificar possíveis padrões, sem presumir que todo alimento consumido antes de uma crise seja seu causador.

O acompanhamento nutricional individualizado permite avaliar a alimentação, investigar possíveis gatilhos e propor ajustes sem restrições desnecessárias.

A enxaqueca é uma condição neurológica que pode envolver diferentes fatores. Por isso, o cuidado deve ser integrado e, quando necessário, contar com acompanhamento médico e nutricional.

Mais do que procurar um alimento culpado, o importante é compreender como a alimentação e os hábitos de vida se relacionam com a saúde de cada pessoa.

Sobre Aline Andretta

Foto nutricionista aline andretta

 

Aline Andretta Levis | CRN8 6972

Nutricionista graduada pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), com residência multiprofissional em Saúde do Adulto e Idoso pelo Hospital de Clínicas da UFPR.

Mestre em Ciências da Saúde e Medicina Interna, possui pós-graduações em Nutrição Clínica Funcional e Fitoterapia Integrativa.

Atua no atendimento clínico nutricional desde 2013 e possui experiência como professora de pós-graduação, inclusive na área de dor.

É membro da Sociedade Brasileira de Cefaleia e do Comitê de Nutrição da Sociedade Brasileira de Cefaleia.

Instagram: @alineandrettanutri

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Perguntas frequentes sobre alimentação e enxaqueca

Quais alimentos podem desencadear crises de enxaqueca?

Bebidas alcoólicas, queijos curados, embutidos e alguns outros alimentos são relatados como possíveis gatilhos. Entretanto, a resposta varia entre as pessoas, e nem todos esses alimentos possuem evidências consistentes como desencadeadores de crises.

Ficar muito tempo sem comer pode causar enxaqueca?

O jejum prolongado e a omissão de refeições podem favorecer crises em pessoas suscetíveis. A regularidade alimentar deve ser ajustada às necessidades individuais.

Beber pouca água pode causar dor de cabeça?

Sim. A desidratação pode contribuir para dores de cabeça e favorecer crises em algumas pessoas. Manter uma hidratação adequada é uma medida importante de cuidado.

Quem tem enxaqueca precisa parar de tomar café?

Não necessariamente. A cafeína pode influenciar as crises de diferentes maneiras. Tanto o consumo excessivo quanto a interrupção abrupta do consumo habitual podem estar associados à dor de cabeça.

Magnésio pode ajudar na prevenção da enxaqueca?

Alguns estudos indicam que a suplementação de magnésio pode ajudar a reduzir a frequência das crises em determinados pacientes. A indicação deve ser individualizada e acompanhada por um profissional de saúde.

Existe relação entre intestino e enxaqueca?

Pesquisas investigam a participação do eixo intestino-cérebro e da microbiota intestinal nos mecanismos associados à enxaqueca. Entretanto, ainda não existem evidências suficientes para recomendar intervenções específicas na microbiota como tratamento universal.

Preciso cortar alimentos para evitar crises?

Não. Restrições alimentares devem ser consideradas apenas quando houver justificativa individual. Excluir diversos alimentos sem avaliação pode comprometer a qualidade da alimentação e nem sempre melhora as crises.

Referência Complementar

  1. Levis AA, Caverni CN, Wille J, Santos PSF. The relationship between the gut-brain axis and migraine. Headache Medicine. 2024;15(3):119–122.

    DOI: 10.48208/HeadacheMed.2024.26

    Artigo completo: https://headachemedicine.com.br/hm/article/view/1127

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